segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Tempo de refletir e reavaliar o que queremos e toleramos como investidores


 


Foto: Reprodução
Como investidor, qual foi sua experiência ao longo de 2021? Mais especificamente, durante o segundo semestre (com diversos eventos locais e globais ocorrendo simultaneamente), quais foram seus sentimentos com a maior volatilidade e com a queda dos ativos brasileiros nos últimos meses?

Provavelmente, você foi bombardeado por abordagens agressivas para seus investimentos quando a Taxa SELIC foi reduzida para o patamar, claramente temporário, de menos de 2,00% ao ano. Bancos, corretoras, agentes de mercado comissionados, YouTubers e outras figuras motivaram a tomada de posições de todos os tipos, em um processo de busca de retornos elevados que negligenciou os reais riscos de cada alocação. Infelizmente esqueceram de alertar aos investidores, com a ênfase necessária, que alternativas agressivas têm riscos e, mais do que isso, que estes riscos podem se materializar em perdas por períodos prolongados ou até mesmo em prejuízos definitivos. Caso contrário, não seriam agressivas. Essa colocação parece óbvia, mas este simples debate foi ignorado durante o período de juros excessivamente baixos no Brasil. A mentalidade era que toda tomada de riscos daria certo e seria extremamente válida, praticamente sem ônus.

Não se deixe levar por extremos quando estiver tratando a alocação de seus recursos. O real desafio é encontrar, ao longo dos anos, um equilíbrio de tomada de posições e de riscos que você realmente tolere em diversos cenários que possam ocorrer por prazos mais longos. Não existe um investidor ser agressivo na alta e conservador na queda. Isso é uma ilusão.

Escapar de visões extremas consiste em: 1) evitar a busca excessiva pela falsa sensação de conforto e estabilidade proporcionada pela renda fixa, sob pena de limitar sua acumulação patrimonial com retornos mais baixos ao longo dos anos e de não viabilizar o sucesso financeiro pretendido; e 2) também evitar o extremo oposto e entender que tomar riscos em aplicações agressivas pode ser fenomenal para seu projeto financeiro e patrimonial de longo prazo, buscando crescimento mais expressivo e viabilizando uma acumulação de recursos satisfatória que atenda seu padrão de vida desejado. No entanto, é preciso compreender que estratégias e ativos agressivos podem dar errado. É fundamental fazer as alocações com o real entendimento dos riscos de flutuações e de perdas, acreditando que tais riscos possam realmente se materializar na prática.

Nossos últimos dois anos foram repletos de eventos muito relevantes que mudaram a forma como vemos e vivemos nossas vidas. Novos padrões e preferências pessoais e profissionais foram estabelecidos. Soma-se a isso a já citada oferta de instrumentos financeiros agressivos de forma exagerada, superficial e, em diversos casos, irresponsável com foco em gordas receitas e comissões. Sendo assim, se dê o direito de fazer reflexões e avaliações mais profundas. Sim, pode ser que seja necessária uma readequação mais ampla e estrutural de seu portfólio e de suas estratégias.

Muitos afirmarão mecanicamente que realizar prejuízos seria precipitado. Eu concordo que, sempre que possível, devemos evitar tomar decisões emocionais e em momentos de intensas movimentações de mercado. No entanto, temos que reconhecer que vários investidores alocaram muito mais risco do que toleram. Se isso for verdade, é necessário que as pessoas se reencontrem para terem tranquilidade e confiança em seus próprios projetos de acumulação patrimonial. Realizar prejuízos uma vez e aprender a lição é doloroso, mas pode fazer parte do processo de amadurecimento do investidor. Mas que este evento sirva de lição para que, por exemplo, em novos cenários de juros baixos, não se cometam os mesmos erros. Esta seria a receita perfeita para o pleno insucesso de seu projeto financeiro: sucessivas tomadas de riscos desalinhadas com sua real aceitação por agressividade, seguidas por inúmeras realizações de prejuízo ao longo dos ciclos econômicos e políticos.

Tentaremos agora conectar o debate acima sobre tomada de riscos, manutenção ou realização de posições agressivas, com exemplos de possíveis cenários a serem encarados no Brasil em 2022.

Podemos ter pioras adicionais ainda neste mandato presidencial, com o populismo impactando a situação fiscal e com ameaças contra a democracia não definitivamente extintas. Desta forma, novas quedas nos preços dos ativos brasileiros podem ocorrer nos próximos meses.

Mas o mercado financeiro não é óbvio e muitas situações são antecipadas. Por vezes ficamos focados apenas nas possíveis pioras, dado o contínuo fluxo de notícias negativas no Brasil, em um cenário atual global complexo para países emergentes, com retirada de estímulos, inflação elevada e a possível alta de juros nos EUA ocorrendo ainda no primeiro semestre de 2022. Também é importante citar que ativos brasileiros já consideram em seus preços, ao menos parcialmente, o contexto desafiador que estamos vivendo.

No entanto, surpresas e reviravoltas podem acontecer. A depender da piora brasileira nos próximos meses, o mercado pode até mesmo comemorar a eleição de uma versão dita como mais central de Lula / Alckmin (caso se confirme essa chapa, mesmo que este resultado possa gerar novas dificuldades para o país ao longo dos próximos anos) ou poderia também comemorar um possível segundo turno entre Lula e uma terceira via liderada por Sérgio Moro (mesmo com propostas e posições pouco conhecidas e com possível grande dificuldade de governabilidade junto ao Congresso).

Caso a sequência de eventos e interpretações dos parágrafos acima venha a ocorrer, poderíamos presenciar uma rodada inicial de novas quedas, por exemplo no mercado brasileiro de ações, para uma posterior potencial recuperação.

Qual a sua tolerância para aguentar possíveis novas quedas do mercado? Te incomodaria mais o próximo movimento de queda ou você ficaria mais atraído por manter ou até mesmo aumentar sua posição agressiva em algumas das melhores empresas do Brasil, por preços atrativos, através de gestores e fundos especializados (aguardando a melhora nos semestres e anos seguintes para extrair bons retornos)? Estes reais questionamentos podem ajudar bastante no processo decisório prático sobre a tomada de riscos em seu portfólio de investimentos.

Para concluir, é importante lembrar que não temos domínio e capacidade de previsão sobre os exemplos acima de eventos políticos e suas consequências econômicas. Nos resta focar sobre o que temos condições de atuar: na busca do autoconhecimento como investidor e do equilíbrio entre sua aceitação de riscos, sua alocação efetiva e seu projeto de vida real, tangibilizado por um robusto planejamento financeiro e patrimonial.

*Fabio Freitas, CFP ® é Economista formado pela Universidade Federal Fluminense, Consultor de Valores Mobiliários e Sócio Fundador da Progredir Investimentos responsável pela Estratégia e Alocação de Recursos. A Progredir Investimentos é um Multi Family Office fundado em 2010. Atua de forma independente e isenta de conflitos de interesses, integrando investimentos e planejamento financeiro e patrimonial de famílias com no mínimo R$ 1 milhão em liquidez.


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