quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Pessoas dormem nas filas para tentar garantir cadastro no Auxílio Brasil


 
Foto: Reprodução
O Bolsa Família acabou no início deste mês e os beneficiários têm, agora, mais dúvidas do que certezas sobre o Auxílio Brasil, o novo programa do governo federal. A promessa de um programa mais robusto, com valores maiores e maior número de beneficiários, se transformou em um grande pesadelo para as famílias pobres que não sabem se poderão fazer parte do programa e estão desesperadas em busca de informações.

Pelo país, acumulam-se os relatos de filas em frente aos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS). No Rio de Janeiro, famílias de baixa renda têm se aglomerado em filas que começam ainda de madrugada em busca de informações sobre o Auxílio Brasil. Há pessoas que viram a noite nas calçadas em frente aos Centros para garantir atendimento na manhã seguinte. A situação tem sido a mesma em outras capitais do país, como Recife, Porto Alegre, Manaus e cidades do interior de São Paulo.

O medo de ficar sem auxílio financeiro do governo tem causado angústia em diversas famílias. É o caso de Thaiz Barbosa, de 28 anos. Ela é cabeleireira e manicure e recebeu o Auxílio Emergencial em 2020 e em 2021. A jovem conta que, durante a pandemia, enfrentou dificuldades financeiras, já que teve que se afastar do trabalho porque tem problemas renais e asma — doença que também afeta seus dois filhos, meninos de 6 e 11 anos.

Ela revela que ficou preocupada com o fim do Auxílio Emergencial. "Minha renda vai diminuir e meu salário não dá para arcar com todas as minhas despesas", afirmou Thaiz. A cabeleireira, que é divorciada e sustenta sua casa, está tentando entrar no Cadastro Único para ter direito ao Auxílio Brasil, mas diz que as informações sobre o novo programa são insuficientes.

Já Ivanilde Pereira dos Santos, 50 anos, é diarista e mora no Recanto das Emas, região periférica de Brasília. Ela recebeu o Auxílio Emergencial desde o início da pandemia, o que, segundo ela, foi essencial, já que ficou sem trabalho por causa da covid-19. "Minhas patroas me dispensaram justamente por causa da covid-19. Então fiquei muito tempo em casa, sem trabalhar. O Auxílio me ajudou bastante. Recebi até o dia 5 de outubro e pretendo receber o Auxílio Brasil. Não sei se vou conseguir, mas espero que sim", disse.

Segundo o Ministério da Cidadania, os pagamentos do Auxílio Brasil começarão no próximo dia 17. Nessa primeira etapa, apenas os beneficiários do Bolsa Família poderão receber os valores, que passarão dos atuais R$ 190 para R$ 271,18. Serão cerca de 14,6 milhões de famílias beneficiadas. O governo espera aumentar esse número para 17 milhões (um acréscimo de 2,5 milhões de famílias que estavam na fila de espera) em dezembro e começar a pagar o tíquete no valor mínimo de R$ 400, mas ainda não tem garantia de recursos para bancar a promessa.

Dados
Para aquelas famílias que já estão no Cadastro Único e não recebem o Bolsa Família, o governo ainda divulgará quais serão os procedimentos para a inclusão no programa. Mas é preciso checar se os dados estão corretos e atualizados — o que pode ser feito pelo aplicativo Meu Cadúnico, disponível para smartphones Android e iOS (Apple).

O cronograma de pagamentos seguirá o mesmo padrão do Bolsa Família: serão feitos nos últimos dez dias do mês de acordo com o último número do Número de Inscrição Social (NIS). Estão aptos a receber o Auxílio Brasil as famílias em extrema pobreza, que tenham renda mensal de até R$ 100 por pessoa e aquelas com renda entre R$ 100,01 e R$ 200 por pessoa que tenham gestantes ou filhos com até 21 anos incompletos. O governo ainda não deixou claro quanto tempo demorará para que novos cadastros no CadÚnico sejam contemplados pelo novo programa.

Cenário obscuro
Para especialistas, a troca do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil é um movimento preocupante, sobretudo em um cenário de inflação não só para este ano, mas que se estende até 2022. A falta de informações claras sobre a continuidade dos benefícios, portanto, é uma falha grave do governo. É o que aponta Felipe Queiroz, economista e pesquisador da Unicamp.

“É um governo obscuro, não informa a população, gera pânico e instabilidade e faz com que as famílias ajam de forma a tentar se precaver. As famílias que sofrem mais e padecem dificuldades das consequências governamentais querem o mínimo de segurança e informação para sobreviver”, pontuou. Para ele, acabar com o Bolsa Família por um programa que não tem como se manter é algo irresponsável. “Substituiu uma política de Estado que era permanente e já tinha orçamento garantido por uma política eleitoreira. Ele empurra o problema com a barriga”, afirmou.

Hugo Iasco-Pereira, doutor em economia pela UFMG, a importância de ter um programa permanente e estável em um momento de crise é grande. “A economia brasileira está patinando, o consumo das famílias é fundamental para retomarmos o crescimento econômico e alguma trajetória de crescimento ao menos no curto prazo. Estamos falando de pessoas que não estão conseguindo comer, ter uma vida digna de ser humano. A troca é feita por motivos eleitoreiros, escusos para um ano de eleição”, concluiu.

Com informações do site: CB