sábado, 30 de outubro de 2021

G20: Bolsonaro ignora superstição ao passear por Roma; entenda


 
Foto: Reprodução

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não falou sobre suas expectativas em relação ao G20 ao chegar à embaixada do Brasil, no histórico palácio Pamphilj, em Roma, onde ficará hospedado até segunda (1º).

Ao descer do carro na porta do edifício, na praça Navona, para cumprimentar sete apoiadores que seguravam bandeiras do Brasil, disse estar feliz por poder visitar, na próxima segunda-feira, a cidade de onde teriam saído seus ancestrais -jornais italianos afirmam que isso não está confirmado.

"Muito obrigado, vi pelo caminho que o pessoal reconhece a bandeira do Brasil. Estou muito feliz, se Deus quiser na segunda visitarei meus ancestrais", disse Bolsonaro, antes de entrar na embaixada. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que ficará hospedado com o presidente, tampouco falou com os jornalistas.

O pequeno grupo de apoiadores que recebeu o presidente era liderado pelo carioca Jorge Ferreira Lima, 49, morador de Roma há dez anos. Segundo ele, os participantes combinaram a homenagem por grupos de WhatsApp que reúnem cerca de 140 pessoas.

Lima, que é evangélico, como os outros cinco integrantes, levava também uma bandeira de Israel. Para ele, Bolsonaro, que conquistou a maioria dos votos dos eleitores brasileiros em Roma no pleito de 2018, tem o apoio dos imigrantes porque "defende os valores de família".

Não havia manifestantes contrários ao presidente em sua chegada à embaixada. Entidades que planejavam protestar contra o governo preferiram distribuir panfletos em que criticam sua política em áreas como ambiente, saúde e economia. Os atos críticos ao líder brasileiro incluem a circulação de um cardápio fictício que inclui pão mofado, pés de galinha, espinha de peixe e tomatinhos transgênicos.

Depois de chegar à embaixada, Bolsonaro saiu a pé, pela porta dos fundos, em direção ao Campo de Fiori, ponto turístico de Roma famoso por suas lojas de flores e frutos. Um vídeo de 12 segundos publicado nas redes sociais pelo deputado ítalo-brasileiro Luis Roberto Lorenzato mostra o presidente caminhando em uma rua comercial cercado por seguranças e apoiadores.

"Encontrando seu povo", escreveu Lorenzato na legenda da publicação. Fervoroso apoiador de Bolsonaro, o brasileiro eleito para o Parlamento italiano em 2018 tem convidado seus pouco mais de 1.500 seguidores a comparecer ao evento na segunda-feira em comemoração ao título de cidadão honorário concedido ao presidente pela prefeitura de Anguillara Vêneta, que seria a terra de seus ancestrais.

Ao caminhar pelo Campo dei Fiori sem máscara de proteção contra o coronavírus, o mandatário brasileiro não segue as recomendações sanitárias vigentes na Itália. Atualmente, todo o país está classificado como "zona branca", a mais segura em uma escala de quatro diferentes cenários.

Nessas zonas, o Ministério da Saúde local determinou que o uso de máscaras só é obrigatório em lugares fechados, mas a Agência Nacional de Turismo recomenda o uso da máscara em ambientes abertos onde não seja possível manter o distanciamento físico -caso da aglomeração provocada pelo presidente.

No passeio, Bolsonaro entrou em uma salumeria, loja de embutidos. Segundo um dos integrantes da comitiva, quando soube que era o presidente brasileiro, o dono da loja ofereceu frios -culatello di Zibello, um presunto cru típico dessa cidade, e spalla cotta, embutido feito de ombro de porco- e queijo pecorino, feito de leite de ovelha, trufado. Para acompanhar os frios e o queijo, o chefe do Executivo recusou a grappa (aguardente italiana) oferecida e tomou um refrigerante de cola.

Depois ele visitou o Panteão, considerado um dos mais belos monumentos da capital, encomendado durante o reinado do imperador Augusto e reconstruído por Adriano por volta do ano 126.

Esta é a primeira visita de Bolsonaro a Roma, mas, se valer a superstição, talvez seja a última: o presidente não jogou uma moeda na Fontana di Trevi, aonde foi em seguida. Segundo a lenda, quem não o faz não retorna à capital italiana. Com o presidente estavam também seu filho Carlos, o ministro da Cidadania, João Roma, e o embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra.

O diplomata foi à Itália para participar de um encontro bilateral entre os ministros das Relações Exteriores dos dois países, o brasileiro Carlos Alberto Franco França e o francês Jean-Yves Le Drian. Entre os assuntos devem estar as possibilidades de negócios na área de defesa.​

No fim desta sexta, pelo horário local, Bolsonaro se encontrou com o presidente da Itália, Sergio Mattarella, como parte do cerimonial italiano para os líderes que participam do G20. No sábado e no domingo, ele participa da cúpula do grupo e tem encontros bilaterais. Bolsonaro terá também no sábado um encontro com Mathias Cormann, secretário-geral da OCDE, o clube dos países ricos.

O Brasil pleiteia fazer parte da entidade, na qual já estão México, Chile, Costa Rica e Colômbia, mas a gestão Bolsonaro tem encontrado obstáculos para fazer avançar esse processo.

Ainda no sábado, o presidente brasileiro participa de um evento nas Termas de Diocleciano e de um jantar oferecido por Mattarella aos líderes do G20. No domingo pela manhã, antes da reunião oficial da cúpula, ainda deve ir a um evento sobre "o setor privado na luta contra a mudança climática" -a política ambiental do atual governo é um dos pontos mais criticados por líderes europeus e provocou o bloqueio da tramitação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

Na segunda, Bolsonaro viaja a Pádua, onde, antes de visitar a cidade de Anguillara Vêneta, deve ir à basílica de Santo Antônio, um dos santos católicos mais populares no Brasil. Os responsáveis pelo santuário, porém, mostraram-se constrangidos com o visitante, que consideram ter entrado em conflito com o papa Francisco diversas vezes, sobre o desmatamento da Amazônia e sobre direitos humanos.

Ao jornal Corriere della Sera um frade antoniano afirmou que "se trata de uma pessoa que acaba de ser acusada pelo próprio país de crimes contra a humanidade pela forma como lidou mal com a pandemia de Covid, que já causou mais de 600 mil mortes". De acordo com a imprensa italiana, Bolsonaro não será recebido nem pelo novo reitor nem pelo delegado pontifício nem pelo bispo.

A Igreja de Pádua divulgou uma nota em que "pede sinceramente ao presidente Bolsonaro que promova políticas que respeitem a Justiça, a saúde e o meio ambiente, especialmente para apoiar os pobres".

O texto diz ainda que a concessão do título de cidadão honorário ao presidente pela prefeitura de Anguillara Vêneta causou "constrangimento". Na terça, Bolsonaro participa em Pistoia de uma cerimônia em homenagem aos pracinhas brasileiros que morreram na Segunda Guerra, antes de voltar ao Brasil.

Esta é a primeira viagem do presidente brasileiro à Europa desde o começo da pandemia. Como ele se declara não vacinado, deverá fazer testes frequentes de detecção do coronavírus.

Com informações do site: BNews