quarta-feira, 7 de julho de 2021

O aluno decide como estudar? Entenda a ideia do novo ensino médio em Minas


 
(foto: Arte EM/Quinho) 
Minas Gerais abriu definitivamente o caminho para o novo ensino médio ganhar as salas de aula das redes pública e particular ano que vem. O Conselho Estadual de Educação (CEE) homologou o currículo responsável por nortear o aprendizado dessa etapa da educação em todo o estado, a partir de uma base comum e dos chamados itinerários formativos. A previsão é de que, em 2022, alunos do 1º ano terão aumentada a carga horária escolar e acesso a uma organização que promete investir no protagonismo dos estudantes. Na rede estadual, um verdadeiro quebra-cabeças para encaixar no mesmo cenário investimentos, legislação e diferenças regionais. 

O novo currículo foi formatado para estar de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que definiu conteúdos obrigatórios e comuns a todo o país. A Lei 13.415, de 2017, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e estabeleceu uma mudança na estrutura do ensino médio: ampliou o tempo mínimo do estudante na escola de 800 horas para mil horas por ano e definiu nova organização curricular. Mais flexível, ela contempla, além da BNCC, a oferta de diferentes possibilidades de escolha aos estudantes – os itinerários formativos, com foco nas áreas de conhecimento e na formação técnica e profissional.
 
Apenas 11 estados, incluindo Minas, homologaram seus currículos, que servem para todo o sistema de ensino, e não apenas a uma rede específica. “Com a BNCC, pretende-se que tenhamos como ênfase no processo o protagonismo do estudante, que a juventude consiga se ver nessa etapa, não a abandone, e que ela faça sentido a esses alunos”, explica a subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Geniana Faria. O novo currículo é dividido em formação básica – contando com habilidades e conteúdos necessários ao aprendizado de todos os estudantes – e flexível. Nele, há disciplinas eletivas e a possibilidade de o estudante montar seu percurso de formação.
  

Preço

Na rede estadual, os custos dessa nova realidade ainda não foram mensurados. A reorganização passa não apenas pela mudança de matriz curricular, mas também pela formação de professores, transporte escolar e alimentação – já que haverá ampliação da carga horária de 833 (caso mineiro) para mil horas. Um aumento que não necessariamente significa mais tempo em sala de aula. A ideia da Educação estadual é levar em conta também as experiências vividas pelo aluno, seja no trabalho, na comunidade ou a partir de seu engajamento social, por exemplo – um desenho considerado importante para alunos do noturno e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).  
 
A forma como essa possibilidade será efetivamente posta em prática será definida nos próximos meses. Uma das tendências é explorar habilidades socioemocionais, como o domínio sobre si, relação com o colega de trabalho ou a comunidade. “Há competências que precisam ser desenvolvidas no ambiente de trabalho, na comunidade ou alguma associação – como saber a hora de falar e de recuar –, e o aluno pode fazê-lo em outro espaço que não o escolar. As experiência serão levadas ao professor em relatórios, seminários ou outros modelos e isso será aproveitado”, explica a subsecretária.

Impulso à entrada no ensino superior 

A assessora da Subsecretaria de Desenvolvimento da Educação Básica e coordenadora da etapa do novo ensino médio, Iara Félix Viana, ressalta que é importante não correlacionar essas experiências exclusivamente ao mercado de trabalho. Ela lembra que ações de movimentos sociais dos quais os jovens participam nunca conversaram com o ambiente escolar, e podem fazer a diferença, inclusive nas escolhas acadêmicas. “Isso auxilia no percurso universitário. Eles sabem que para ser bem remunerado é preciso a continuação acadêmica. Dizer a eles que são capazes de entrar na universidade é muito importante e o currículo está também muito voltado a esse impulso ao ensino superior”, afirma.  
 
O vínculo da atividade fora da escola com competências do currículo foi normatizado pelo Conselho Estadual de Educação. “Independentemente de o estudante estar no interior, no diurno ou noturno, adotamos como fio condutor a educação integral: que ele tenha condições de estar no mercado de trabalho, universidade, curso técnico, ou seja, estar onde quer estar. Tão importante quanto desenvolver habilidades e conteúdos é desenvolver habilidades e competências”, completa Geniana.
 

Cada cidade poderá escolher até dois itinerários a serem trabalhados e o estudante poderá transitar de uma escola a outra na busca de formação extra. Mas ainda não há detalhes de como isso ocorrerá. Em Minas, 496 dos 853 municípios têm apenas uma escola estadual, o que requer estratégias para garantir o direito de escolha. A secretaria estuda também se será necessário contratar professores para dar conta da ampliação da carga horária.  

Pandemia prejudicou testes em 13 escolas 

Alunos de 13 escolas da rede estadual de ensino já conhecem as bases do novo ensino médio. Eles fazem parte de um projeto-piloto implementado ano passado pela Secretaria de Estado de Educação, mas cujo teste foi atropelado pela pandemia e a necessidade de aulas remotas. As novidades tiveram de ser adaptadas ao contexto atual, que dificultou testes em todos os requisitos nas escolas, como adequações em transporte e alimentação, sistemas e formações.
 
 
Em outubro do ano passado, a secretaria estadual anunciou o piloto para estudantes do primeiro ano: grade mais flexível, com a base comum e obrigatória, mas também a possibilidade de novos percursos de aprendizado. Eles poderiam escolher aquilo que faz sentido para seu itinerário escolar e de vida, incluindo formação técnica e profissionalizante. A carga horária passaria para 9 horas.  

A rede estadual havia previsto alcançar 28 mil estudantes, de 281 escolas (4,4% dos alunos do ensino médio) com os primeiros passos do novo ensino médio, mas apenas 5,6 mil fizeram parte dos testes. Mesmo assim, a secretaria ressalta que foram identificadas “boas práticas na oferta de eletivas (disciplinas)” e que “escolas e regionais têm compartilhado informações valiosas sobre a ampliação de carga horária, necessidades de adequações de sistemas e aspectos pedagógicos e de organização da escola diante da lógica das áreas de conhecimento”. A secretaria acrescenta que as informações têm subsidiado o planejamento de formações e detalhes do modelo a ser oferecido em 2022.
  

Três perguntas para... 

Pedro Rocha, coordenador pedagógico do Colégio Pensi 

O que diferencia o novo ensino médio de outros implementados em passado recente, e o que pesa para que ele dê certo? 

Basicamente, o novo ensino médio visa trazer protagonismo aos alunos no processo de aprendizagem. O mundo está em constante transformação, e, com a autonomia proposta no novo currículo, as escolas poderão oferecer uma educação que de fato prepare os jovens para os desafios do século 21. Uma educação mais atraente e relevante, e que possa ainda sanar problemas que a educação, em especial a pública, vem enfrentando. No ensino médio, há uma grande evasão escolar e muito desinteresse por parte dos estudantes, dado o distanciamento com a realidade dos alunos. 

A BNCC é a razão de ser dos currículos que estão sendo homologados nos estados. Como dar um salto de qualidade nessa etapa de ensino a partir das novas diretrizes? 

O salto de qualidade só será possível à medida que as diretrizes de implementação da BNCC sejam efetivamente seguidas. Para isso, é necessária uma mudança em todos os âmbitos da escola: alunos, professores, famílias, coordenações e direções. Professores precisam reformular suas aulas, conteúdos, e a abordagem, para que seja mais efetiva e traga autonomia. Para garantia de sucesso, é necessário que os professores sejam treinados para esse grande momento. A escola precisa repensar seus ambientes, sua organização, divisão de turmas, escolha de material didático. Famílias que precisam amadurecer a ideia de que o novo ensino médio tem um certo grau de disrupção em relação a métodos tradicionais, e precisam ser suporte para que alunos saibam gerenciar a autonomia, e estejam aptos a entender os desafios que podem surgir. Em resumo, é necessário uma intenso mergulho em relação ao que se espera da escola. Caso contrário, corremos o risco de gastar a energia, mas continuar fazendo mais do mesmo.
 

Em um estado diverso como Minas Gerais, quais desafios não podem ser perdidos de vista? 

Não somente em Minas, mas em qualquer outra localidade, é necessário que os líderes escolares sejam bastante diligentes em monitorar a transição. Garantir que os problemas do passado estejam de fato sendo diminuídos, entre eles a evasão escolar, a inflexibilidade dos currículos, o desinteresse e a distância entre escola e mercado de trabalho. Garantir que o novo currículo possa trazer essa mudança significativa é o grande passo para que se possa atingir os propósitos da reforma. É também de suma importância que os órgãos públicos estejam de mãos dadas com as escolas, ajudando a preparar treinamentos e sendo ativos no processo de preparação dos profissionais para essa nova forma de fazer educação.

Com informações do site: ESTADO DE MINAS