segunda-feira, 31 de maio de 2021

Educação financeira tem de ser para todos, mesmo os que ganham menos, dizem especialistas


 
Foto: Reprodução
Mesmo se considerando financeiramente consciente, toda a instrução que Bruna Costa, de 24 anos, lembra de ter recebido em sua vida sobre isso veio de seus pais ou de pesquisas autodidatas que começou a fazer a partir do momento em que se viu morando sozinha e com grandes responsabilidades a cumprir.

Entretanto, apesar de nunca ter sujado o nome e, assim que recebe o salário, priorizar o pagamento de contas, Bruna não tem um controle tão eficaz de suas finanças. Mesmo que tente estabelecer metas semanais de gastos, ela não tem tanta noção de para onde vai seu dinheiro conforme o gasta. O hábito de poupar uma quantia fixa só começou em 2021, quando sua situação financeira melhorou significativamente.

Ainda que considere ter muito a melhorar, a realidade de Bruna não reflete a exposta pelo percentual de famílias endividadas (66,5%) levantado em janeiro de 2021 pela Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Do mesmo modo, não pode ser ilustrada pelos 61,4 milhões de brasileiros inadimplentes apurados pelo Serasa Experian, em março deste ano – número que, por maior que seja, diminuiu 3,1% em relação ao mesmo período em 2020.

Ainda segundo a Serasa, a quantidade de pessoas que tinham alguma dívida no início da pandemia da Covid-19 no Brasil, era de 65,9 milhões. No entanto, segundo próprio economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, o pagamento do auxílio emergencial e os programas que trouxeram certa facilidade e possibilidades de renegociação das dívidas promoveram a queda do número de inadimplentes, mesmo ainda em meio à crise sanitária.

“Como o setor financeiro facilitou as negociações, ampliando os prazos de quitação, as pessoas endividadas optaram por priorizar estes compromissos ante os demais”, completou Rabi, ainda ao portal do Serasa Experian. Situações como essa, no entanto, para o planejador financeiro, João Gondim, consistem em tratar os sintomas da crise, e não a origem do problema em si.

“Existem remédios que tratam os sintomas em curto prazo, mas é preciso autorresponsabilidade. Quem não tem consciência com o dinheiro, age de forma reativa, não planejada, e acaba se endividando e se prejudicando em longo prazo”, explica João.

O que é a educação financeira?

Quando uma pessoa é financeiramente educada, segundo a economista e analista de mercado Greice Guerra, ela é capaz de melhor administrar seus recursos, salário, outros ganhos, investimentos, economias e, consequentemente, seus gastos. Isso ocorre, porque a educação financeira é um processo que permite a pessoa compreender a relação existente entre os produtos e os serviços financeiros.

“Assim você compreende melhor o preço dos produtos, consegue avaliar se está caro ou barato e passa a priorizar os seus objetivos, cortar gastos desnecessários e acaba se disciplinando. Essa disciplina que consequentemente te permite a alimentar a reserva, te ajuda a enfrentar tempos difíceis como o da própria pandemia ou a adquirir bens de consumo como carro, casa ou realizar algum outro sonho”, ressalta a economista.

Um dos princípios dessa educação financeira, de acordo com o planejador financeiro Gustavo Alves, é garantir a qualidade de vida no futuro, não apenas usufruir do dinheiro no presente. “É muito comum encontrar pessoas que gastam tudo o que ganham e não realizam nenhuma reserva financeira. Dessa forma, qualquer imprevisto pode ser um grande risco para a estabilidade da pessoa ou da família”, diz.

Ele ressalta, no entanto, não saber lidar com o dinheiro e não se interessar em estudá-lo, por falta de incentivo ou diversos outros motivos, é a realidade da maioria das pessoas; e para Gustavo, o estudo é crucial para uma administração financeira bem-feita. “Estudamos décadas para aprender a ganhar dinheiro, mas não para aprender a cuidar dele”, justifica.

Já João Gondim, que também é planejador financeiro, explica a importância de esse processo ocorrer desde a infância, uma vez que a criação de uma consciência financeira não se cria repentinamente, mas de forma gradativa. “Comportamentos são hábitos, uma repetição de ações. O que acontece hoje, é que como a educação financeira não é tão presente nas escolas, a criança terá dois tipos de reações em relação aos pais, que serão suas únicas referências: o comportamento espelho e o espelho reverso”, diz.

Para Gondim, ao se portar de forma espelhada, a criança copia os comportamentos financeiros dos pais, ao se tornar adulto. “Se ele tem uma referência positiva dessa ação, ele irá copiar sem perceber. Imagine que sempre que os pais quisessem viajar com a família, entrava no cheque especial sem planejamento e deixava para se preocupar posteriormente com as dívidas. Se quando os pais faziam isso, a criança vivencia momentos incríveis com a família, ele vai crescer achando que para ter qualidade de vida, ele pode fazer uma dívida e depois correr atrás do prejuízo. Já o espelho reverso ocorre quando essa referência é negativa. Suponhamos que após viajar, a criança ou o pré-adolescente percebe que os pais passam os meses seguintes preocupados, brigando e tensos devido a dívida que foi criada. Nessas situações, a criança associa esse comportamento a algo ruim, passando a evitar a dívida a qualquer custo”, ilustra.

No entanto, João Gondim ressalta que, tanto na situação espelho, quanto no espelho reverso, a pessoa se mantém presa na referência do comportamento de alguém. “A consciência financeira, contudo, ocorre quando se cria autonomia para tomar decisões sobre dinheiro, que pode ser chamada de maturidade financeira. Quando se entende o papel do dinheiro na própria vida”, complementa.

As vantagens de ser financeiramente consciente, estado que se advém de uma educação gradativamente trabalhada, para a economista e analista de mercado Greice Guerra, são claras e possibilitam com que as pessoas saibam evitar o consumo em excesso, os gastos desnecessários e faz com que se aprenda a priorizar o que é mais importante em cada momento. “Desse modo, as possibilidades de não se cair em endividamentos e conseguir lidar melhor com as crises são altas”, explica Greice.

Em concordância, o planejador financeiro Gustavo Alves acrescenta a importância de aprender a saber investir, para que seja possível lucrar também em tempos difíceis, e de, principalmente, priorizar investir em bons seguros, como planos de saúde, de modo que que a qualidade de vida do presente ocorra sem comprometer a renda do futuro. “Nas crises, as grandes oportunidades aparecem. Em março do ano passado, por exemplo, a bolsa de valores caiu quase pela metade. Quem tinha alguma reserva financeira e já tinha alguma experiência com o mercado, ao invés de desesperar e vender tudo o que tem por medo de perder dinheiro, aproveitou para comprar, sabendo que uma hora o mercado iria se reestabelecer, e em menos de um ano isso aconteceu”, relatou.

Planejar gastos e guardar dinheiro não é só para quem ganha muito

Mesmo que seja difícil visualizar a criação de uma reserva e o planejamento de gastos quando se vive com pouco, como quem sobrevive com o valor de um salário-mínimo, valor que passou a ser de R$ 1.045 a partir de 1º de fevereiro de 2020, para os planejadores financeiros e para a economista Greice Guerra, isso é possível e necessário. “Planejamento financeiro não é só para quem ganha bem, é para qualquer pessoa que gaste dinheiro”, completa João Gondim.

Em todos os ganhos, sejam poucos, médios ou altos, a pessoa pode se organizar. Fazer uma planilha de custos, onde é jogada toda a receita, entre ganhos e gastos. Assim, é possível ver onde se gasta em excesso, se tem algum gasto desnecessário, se pode economizar e, mais importante ainda, estabelecer uma meta. “É preciso ter disciplinas e fazer renúncias. A vida é construída pouco a pouco. Ninguém tem estabilidade de vida de uma hora para a outra e quanto mais aos poucos, se for solidificado, melhor ainda”, diz. O importante, segundo ela, portanto, não é ter grandes quantias mensais para economizar, mas ter o controle do destino do dinheiro e a disciplina de se guardar dinheiro, por meio de metas estabelecidas, quando se é possível.

“Nesse quesito, também é importante pensar no futuro. Ter coisas que são conquistadas ao longo dos anos e que te dê estabilidade, como aposentadoria, casa própria e plano de saúde podem te socorrer em momentos difíceis. É por isso que a educação financeira, que é oriunda de uma disciplina, é tão importante”, ressalta Greice.

Para Gustavo, quem vive com salário mínimo é quem mais precisa ter um planejamento financeiro exatamente pelo motivo de ter o potencial de redução de gastos limitado. “Muitas vezes, eles precisam abrir mão de coisas básicas, ao contrário de quem tem muito dinheiro, que abre mão de luxos e coisas supérfluas quando quer economizar”, diz. Nesses casos, ele explica que a educação financeira contribui para evitar que eles se prendam ainda mais com altos juros de empréstimos, financiamentos e encontrem formas distintas de fazer alguma renda extra, como no caso dos investimentos.

“Com isso, a pessoa também consegue entender como funciona o dinheiro e se questionar: a única solução que tenho é o emprego de carteira assinada ou eu posso fazer alguma outra coisa além para conseguir mais dinheiro? O que preciso aprender sobre o dinheiro para que no futuro eu consiga melhorar minha renda?”, esclarece, além de acrescentar que, apesar de o corte de gastos, nessa situação ser limitada, a receita não possui limites. “A educação financeira vai permitir que a pessoa entenda que, por mais que agora esteja difícil, ela pode ir desenvolvendo novas ferramentas para que, daqui algum tempo, se veja em uma situação melhor que a que se encontra hoje”, complementa Gustavo.

Educação financeira: de quem é a responsabilidade?
Entre todos os especialistas consultados na produção desta reportagem, é de consenso que a maior responsabilidade quanto ao fornecimento da educação financeira para que, ela ocorra desde a infância, é primeiro dos pais e logo depois das escolas – e, consequentemente, do Estado. No entanto, o que ocorre em diversos casos, segundo o planejador financeiro João Gondim, é que os pais não possuem consciência financeira o suficiente para servirem de bons exemplos aos filhos e que as escolas não abordam esse assunto da forma adequada. “Nas escolas, o que vemos, é a educação financeira somente associada à matemática financeira, e apenas isso não é suficiente”, afirma João.

Em concordância, apesar de não descartar o que já é ensinado nas escolas atualmente, Gustavo Alves também não considera o contexto atual suficiente para a formação de uma sociedade financeiramente educada. Como exemplo para que os pais consigam, desde a infância, despertar esse tipo de consciência nos filhos, portanto, ele e Greice destacam o estímulo à poupança. “Os pais podem e devem ensinar aos filhos a terem paciência, ensinando-os a comprarem algo à vista após poupar alguns meses quando não se tem o dinheiro todo logo de cara. Mesmo caso tenham a quantia necessária, o exercício é interessante para que as crianças aprendam a esperar ao invés de parcelar e estimular o consumo imediato”, afirma Gustavo.

Para Gustavo, também é importante que se faça entender que o dinheiro não surge do nada e que é fruto de muito trabalho, além de mostrar a crucialidade se priorizar algumas coisas em detrimento de outras. “Ao invés de dizer que não tem dinheiro, quando os filhos pedem determinados objetos, os pais podem dizer que tem outras prioridades, no momento, e por isso não podem comprar o que os filhos querem. As crianças, por si só, ainda não têm maturidade para entender o que são as prioridades, então isso precisa ser passado a elas”, diz.

“Também podemos ensinar as crianças a comparar preços e analisar a qualidade dos produtos. Se eu tenho um valor X, quais as opções eu tenho? Eu posso comprar várias coisas diferentes com esse valor. É possível mostrar ao filho que, às vezes, o que ele quer vai consumir todo o dinheiro que se tem reservado para cobrir várias outras demandas cotidianas”, acrescenta Gustavo.

O estímulo a entender e a aprender matemática, para Greice, também é crucial nesses momentos. “Se pode ensinar a criança a calcular os juros, fazer as contas, incentivar que ela questione se um produto está caro ou barato, colocar metas a cumprir, mesmo que de forma leve. Também se pode mostrar o que é um financiamento, como se calcula, e até mesmo apresentar a calculadora, porque estamos em um país que muitas pessoas não sabem nem como se usa esse instrumento. Uma calculadora comum, já não se sabe, imagina a calculadora financeira”, pontua.

Em Goiás, apesar de a educação financeira, de forma majoritária, estar inclusa no ensino da matemática, existe certo esforço em relação ao seu aprendizado nas escolas. A superintendente do Ensino Fundamental da Secretaria de Estado de Educação de Goiás (Seduce-GO), Gisele Faria, cita o programa Aprendendo a Lidar com o Dinheiro, que é realizado desde 2019 pelo Estado em 95 escolas estaduais de Goiás. “O ensino da educação financeira é uma prioridade para o estado e ele deve ocorrer não só nos momentos de crise, mas nos de abundância também, uma vez que só assim as pessoas conseguirão enfrentar os momentos difíceis”, afirma.

“A partir desses projetos, temos trocas de experiências e ajudamos muitas crianças. Inclusive, a realidade de muitas famílias já foi transformada a partir de conhecimentos adquiridos pelos filhos nas escolas, como a noção do que são juros, a importância de se evitar o parcelamento e de se criar uma reserva”, destaca Gisele.

Para que este ensino ocorra com qualidade, a superintendente do Centro de Estudos, Pesquisa e Formação dos Profissionais da Educação de Goiás, Rita de Cássia, conta que os coordenadores pedagógicos são os responsáveis por apoiar e acompanhar os professores e as turmas para que os resultados do programa sejam eficazes. O foco do Aprendendo a Lidar com o dinheiro, segundo ela, são as turmas do 9º ano do ensino fundamental. “São metodologias ativas, onde o estudante é o protagonista do processo de aprendizagem. Também é utilizada a metodologia da aprendizagem baseada em projetos, e no desenvolvimento de competências básicas de matemática”, pontua Rita.

A superintendente do Centro de Estudos ainda diz que o curso ocorre à distância e possui carga horária de 120 horas. Em sua ocorrência, são disponibilizados materiais para todos os participantes, professores e estudantes, que são articulados aos conteúdos curriculares de matemática, com correspondência direta às expectativas de aprendizagem da matriz da Secretaria de Educação de Goiás.

“Por meio dessas duas metodologias, os estudantes podem simular e experienciar as situações como se elas fossem reais, tornando o processo de aprendizagem significativo para eles.  Esperamos prover e mobilizar conhecimentos práticos dos estudantes dentro do tema Educação Financeira, de forma a viabilizar o enriquecimento das experiências adquiridas em outros contextos, dentro e fora de sala de aula”, opina Rita de Cássia.

Dicas para se planejar financeiramente

Para que a educação e, consequentemente, a consciência financeira seja alcançada, o planejador financeiro, João Gondim, sugere que se comece estabelecendo metas, objetivos e prioridades. Tanto a curto, médio e longo prazo. A curto prazo, contas fixas, como água, luz e aluguel. A longo prazo, a compra de bens duráveis. A partir disso, estabelecer quanto por mês será necessário economizar, mesmo que em valores pequenos, para que a meta seja alcançada.

Apesar de ver importância no controle de gastos, João Gondim acredita que controlar o que gastou é olhar para o passado, não necessariamente para o futuro, e que só isso não é suficiente. “É importante olhar para a frente, utilizando o passado como referência para se nortear”. E ele é claro: o dinheiro que se guarda, não é o que sobra. Para ele, as quantias a serem economizadas precisam ser encaradas como uma conta a ser paga, “por isso a necessidade da disciplina”.

“Quando o mês começa, pague as contas e já pegue o valor que determinou a ser guardado, e o guarde ou invista imediatamente. É preciso mudar o paradigma que dinheiro tem que sobrar. Dinheiro é movimento. Investe o que pode e gasta o resto. Não precisa sobrar nada no final do mês, desde que você tenha abastecido sua reserva de emergência com o que pode”, destaca. Para ele, como todo esse processo é 90% comportamental e 10% estudo e técnica, acaba sendo ainda mais difícil para as pessoas. “Autorresponsabilidade é o primeiro passo”, frisa João.

João ainda diz que, mesmo quando se é adulto e a pessoa já se encontra em meio às dívidas, nunca é tarde demais para se organizar e ter consciência financeira. No entanto, ressalta: quanto mais cedo, melhor, e se puder começar hoje, ao invés de deixar para amanhã, é ainda mais vantajoso.



Com informações do site: Jornal Opção