terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Pelo menos 50 concursos estão com provas marcadas até o fim de 2021


 
Foto: Reprodução
Há cerca de 50 certames com provas marcadas até o fim do ano. Com a pandemia, vários concursos que ocorreriam em 2020 tiveram de ser adiados ou ficaram sem data para que o processo fosse retomado.

As incertezas com relação a quando a campanha de vacinação começará para garantir a segurança dos concurseiros, porém, não impede que as bancas organizadoras deem prosseguimento à agenda. Por isso, os candidatos e as empresas devem tomar as devidas precauções.

Para o coordenador da Sala de Situação em Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Jonas Brant, o Brasil enfrenta um quadro grave em relação à pandemia. Por isso, é necessário ter atenção redobrada na hora de fazer os certames. “Se fosse possível evitar concursos, seria o melhor”, recomenda.

"O Brasil enfrenta um cenário grave em relação à pandemia. Por isso, é necessário ter atenção redobrada na hora de fazer os certames. Se fosse possível evitar concursos, seria o melhor" Jonas Brant, doutor em saúde coletiva
Ele informa, no entanto, que essa não é uma regra geral. “É preciso entender que cada lugar do país vivencia a sua pandemia, com número de casos e taxas de contaminação diferentes. Em todo caso, é necessário conhecer e praticar cuidados importantes para permanecer em segurança”, diz.

As medidas de proteção devem ser adotadas antes, durante e depois de concursos. Na fase posterior, o doutor em saúde coletiva aconselha as bancas a criarem uma comunicação inspirada no processo de vigilância ativa, em que a descoberta de uma pessoa infectada após o certame é notificada a todos os presentes na prova.

“Essa não é uma obrigação legal, mas seria ético e responsável se os organizadores orientassem candidatos e colaboradores a informar se, por acaso, nos dias seguintes à prova, perceberem sintomas da covid-19”, afirma. “Assim, todos tomarão as medidas necessárias e diminuiria o risco de infecção de outras pessoas”, explica.

Bancas se adaptam
Para dar continuidade ao calendário de concursos ainda durante a pandemia, bancas organizadoras começaram a estabelecer regras de biossegurança para execução dos certames, caso do Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe).

No primeiro semestre, estão previstos três concursos públicos organizados pela instituição: Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e duas seleções do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). A banca organizadora criou um manual de orientações de prevenção à covid-19 direcionado aos candidatos (leia o quadro Regras do Cebraspe).

“O manual traz as medidas necessárias para a prevenção à covid-19 e, para cada evento, o Cebraspe analisa as fases e as necessidades, bem como observa as determinações de saúde nacional e locais, adequando as orientações aos candidatos e aos colaboradores envolvidos”, afirma Cláudia Griboski, diretora executiva do Cebraspe.

O Instituto AOCP está com duas provas previstas nos dois primeiros meses do ano. O exame nacional de residência da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) ocorre neste domingo (10/1). Também haverá um certame da Prefeitura de João Pessoa (PB) em 21 e em 28 de fevereiro. A banca desenvolveu um protocolo de biossegurança detalhado e tomou precauções quanto aos funcionários (leia o quadro Cuidados do AOCP).

O documento tem como base o manual de biossegurança para reabertura das escolas federais no contexto da pandemia e o protocolo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em 2020, a banca organizou três certames.

Foram os da Polícia Civil do Espírito Santo (13/9), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (27/9) e o concurso de agente penitenciário da Secretaria de Justiça e da Cidadania de Roraima (6/12). Segundo o instituto, as fases transcorreram de acordo com as regras estabelecidas e não houve aglomeração ou qualquer ocorrência.

Seleções e a falta de vacina
Para Eduardo Ferreira, vice-presidente da Associação Brasileira de Concursos Públicos (ABCP), no entanto, as aplicações de provas deveriam ser retomadas apenas após a vacinação.

“A ABCP recomenda aos seus filiados e à sociedade em geral que não promovam provas de concursos antes da chegada da vacina”, diz. “A promotora do evento tem que estar ciente que, se decidir promover aglomeração neste período, terá este ônus como condição.”

A exceção, segundo Ferreira, são os concursos que visam completar quadros para auxiliar no combate à pandemia em áreas da saúde pública. “Muitos desses concursos nós mesmos promovemos e eles foram realizados de maneira absolutamente segura, com distanciamento e medidas rigorosas de assepsia”, comenta.

“Um concurso nessas condições encarece todo o processo, mas é um custo que é necessário nesses tempos difíceis. Tempos difíceis, medidas difíceis”, reforça. Em casos de concursos voltados para a saúde ou que as bancas organizadoras façam antes da execução da campanha de vacinação, Eduardo Ferreira recomenda que o candidato averigue, telefone e procure indagar a empresa promotora do certame acerca das condições do evento.

“O concurso é um serviço prestado e, como qualquer outro bem ou serviço adquirido, é regulado pelo Código de Defesa do Consumidor, e todos têm o direito de saber em quais condições esse serviço será oferecido e de denunciar qualquer insalubridade em sua execução”, orienta.

"É possível fazer concursos em tempos incertos, desde que as organizações sigam rigorosamente os protocolos sanitários" Renato Saraiva, presidente da Associação de Apoio aos Concursos e Exames.
O presidente da Associação de Apoio aos Concursos e Exames (AConexa) e fundador do CERS Cursos On-line, Renato Saraiva, pondera que é possível fazer concursos em tempos incertos, desde que as organizações sigam rigorosamente os protocolos sanitários.

“Creio que as bancas estão seguindo esses cuidados visando a maior segurança de todos os envolvidos em uma etapa prática de concursos públicos, porém, cada candidato deve avaliar seus riscos levando em conta fatores pessoais, inclusive, como sua condição de saúde e se é ou não grupo de risco”, afirma.

Contatado para comentar a realização de processos seletivos durante a pandemia em órgãos federais do Poder Executivo, o Ministério da Economia afirma que a responsabilidade pela execução dos concursos é de cada órgão setorial que recebeu a autorização. “Informações sobre os certames em andamento que foram suspensos por causa da pandemia devem ser verificadas diretamente com os órgãos realizadores”, informou, por meio de nota.

Cuidados do AOCP
As medidas de biossegurança são similares para todas as bancas e é possível ver as normas no site. Confira as principais medidas que o Instituto AOCP aplicou quanto à preparação da equipe e à organização do local:

» Atenção para aglomeração: no local de prova, serão organizados, constantemente, o fluxo de entrada de candidatos, o trânsito e a saída de pessoas de dentro do prédio.

» Equipe de aplicação em quarentena: a equipe contratada está fora do grupo de risco e tem se mantido reservada e atenta para não ter contato com pessoas contaminadas ou suspeitas da doença, principalmente nos últimos 15 dias que antecedem à data da prova.

» Treinamento antecipado: toda a equipe será treinada remotamente por meio de vídeo. Os colaboradores receberão manuais e serão devidamente instruídos para manter as medidas sanitárias em vigor, disponível no site da própria organizadora, para acesso público.

Regras do Cebraspe
Confira as normas de biossegurança da banca para provas:

» Candidatos devem portar máscaras reservas, em sacos plásticos, para que sejam trocadas a cada duas horas.

» Haverá aferição da temperatura corporal. Caso o concurseiro tenha temperatura superior a 37,5°C, será encaminhado para sala especial.

» Será mantido o distanciamento social previsto em lei em salas e corredores.

» Pessoas com cabelos longos deverão mantê-los presos durante todo o período de provas.

» O Cebraspe disponibilizará frascos de álcool em gel em todas as salas de aplicação. Porém, o candidato poderá levar o próprio frasco, desde que esteja em recipiente transparente.

» Será permitido ao candidato usar máscara descartável, de tecido ou de qualquer outro material, desde que não tenha partes em metal. Além disso, será permitido o uso de protetor facial, roupas descartáveis, luvas descartáveis (transparentes ou semitransparentes), óculos de proteção e objetos de higienização.

» Antes da aplicação, a identificação do candidato será feita a distância, sem manuseio de documentos ou contato físico. Poderá ser solicitado ao candidato que ele mesmo tire sua máscara para facilitar a identificação. Para a assinatura da lista de frequência, será disponibilizado kit de álcool para desinfecção antes e depois do procedimento.

» Durante o certame, o candidato deverá manter-se de máscara. Recomenda-se que cada um leve garrafa d’água em embalagem transparente para evitar utilização de bebedouros.

» Após a prova, o candidato deve manter o distanciamento social e seguir as instruções da equipe de aplicação para evitar aglomeração.

Tira-dúvida
Existe a possibilidade de promover concursos remotos?
Renato Saraiva, presidente da Associação de Apoio aos Concursos e Exames, opina que existe a possibilidade de se fazer um certame virtual e a prova disso é o primeiro Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) Digital, que será on-line para parte dos candidatos. Contudo, existem ressalvas. “Tecnologicamente é possível, todavia é preciso levar em conta questões como fraudes eletrônicas e comprovação digital de quem, de fato, vai estar fazendo a prova”, pondera.

Eduardo Ferreira, vice-presidente da ABCP, conta que a associação tem acompanhado a hipótese de concursos na modalidade a distância. Porém, ele descarta tal possibilidade. “Embora prodigiosa nos tempos atuais, a tecnologia ainda não chegou ao ponto da sofisticação de garantir isonomia aos candidatos”, argumenta. Além disso, ele reforça que, caso uma empresa venha a promover um certame remoto, a associação recomenda que não haja adesão pelos concurseiros.

Receios e riscos na busca pela vaga
Gustavo Dias, 28 anos, está inscrito para a prova de 21 de fevereiro do TCDF, além do certame do TCE-RJ, que ocorre em 6 e 7 de fevereiro. O servidor público sente receio em relação às medidas de biossegurança impostas pelas bancas, pois acha que elas não eliminam o risco de contágio.

“Você, querendo ou não, vai estar em risco, e as bancas não vão conseguir conter a proliferação do vírus e não vão te proteger 100%”, diz. A maior preocupação dele é com relação à possibilidade de alguém estar infectado e acabar contaminando outras pessoas.

Ele também teme a invalidação da seleção. “Eu tenho um receio, também, muito grande de, futuramente, essa prova correr o risco de ser cancelada por causa da pandemia”, admite.

“O princípio de todo concurso público é de que todo mundo possa concorrer em nível de igualdade. A partir do momento que a gente tem uma situação que tire a igualdade, é motivo para ser impugnado”, afirma o servidor.

Alguém estar infectado com a covid-19, por exemplo, seria um fator que tiraria a igualdade, pois uma pessoa com a doença, em tese, não poderia fazer o certame.

Em trânsito
Como terá que se deslocar de Brasília ao Rio de Janeiro para fazer um dos certames, ele também tem receio quanto aos riscos de contágio durante o trajeto. Gustavo solicitou folga no trabalho e deixará para reservar hospedagem e comprar as passagens nas duas últimas semanas que antecedem o certame, com medo de uma eventual suspensão.

Gustavo é servidor público há um ano e meio e pretende prestar vários concursos para tribunais de contas em todo país. A rotina de estudos é puxada. Ele acorda às 5h30, estuda por três horas, toma o café da manhã e vai trabalhar. Quando volta para casa, à noite, resolve questões de simulados.

Ele sempre cogitou o cargo de auditor, desde que entrou para o curso de contabilidade, mas era um sonho a longo prazo. “Sei que é uma carreira que precisa de um tempo de formação. Por isso, fiz, primeiramente, concursos de contador”, conta o bacharel em ciências contábeis pela UnB.

Em 2017, ele começou a estudar com dedicação e planejamento e percebeu que o estudo em casa rendia muito mais do que cursinhos ou aulas coletivas. A partir daí, as aprovações começaram a surgir e, hoje, ele usa o Instagram @rotinaconcursos para contar sobre sua experiência com provas e estudos para outras pessoas.

“Minha prova está marcada”
Um dos concurseiros que está com prova agendada é Ismaley Marques, 32 anos. O servidor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) vai prestar os dois concursos do Tribunal de Contas do Distrito Federal, previstos para 21 de fevereiro (auditor de controle externo) e 14 de março (auditor conselheiro-substituto).

O administrador começou a estudar para concursos há sete anos e prioriza o cargo de auditor há três anos e meio. Ele se apaixonou pela área de controle, por isso, quer trabalhar em algum tribunal de contas. Para fazer as provas, viajará de automóvel próprio da cidade onde mora, Araguari (MG), até Brasília (DF).

O agendamento da hospedagem, segundo ele, será feito apenas alguns dias antes do exame, como precaução para caso o certame seja suspenso. Apesar de ainda não ter data para a vacinação contra a covid-19 no país, Ismaley acha que a aplicação do teste será tranquila.

“Eu me sinto seguro tomando as medidas sanitárias passadas pela Organização Mundial da Saúde. Alguns órgãos já fizeram processo seletivo e fiz parte de uma equipe como fiscal no vestibular da UFU”, conta. “Dá para fazer o concurso e proteger as pessoas ao mesmo tempo.” Em relação à expectativa para a prova, ele está confiante: “Eu me preparei bastante e vou me dedicar até a última sexta-feira antes do concurso”.

Cuide-se numa seleção
Para reduzir o risco de contaminação durantes as provas, confira orientações do doutor em saúde coletiva Jonas Brant, que passou pelo Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde (EpiSUS):

Para candidatos
1. Escolha vestuário de fácil higienização
Candidatos devem começar os cuidados antes mesmo de sair de casa, escolhendo roupas fáceis de retirar e higienizar na volta do processo seletivo. Evite joias, xales e cachecóis, e, para quem tem cabelos longos, mantenha-os presos. Esses itens criam espaços para o vírus se alojar e contaminar a pessoa posteriormente.

2. Utilize apenas um recipiente para guardar os itens necessários na prova
Utilize uma só bolsa, de fácil higienização, para transportar os itens que utilizará no certame, como canetas, documentos e alimentos. Quanto menos coisas levar, melhor.

3. Não esqueça o álcool higienizador
Outro item essencial na bolsa dos concurseiros é o álcool em gel. Apesar de ser muito importante, o álcool nessa forma não é tão eficaz quanto o álcool líquido, por isso recomendo o uso de borrifadores: eles facilitam a limpeza de superfícies, não as deixam com aspecto úmido e o líquido seca mais rápido.

Para as bancas
1. Planeje entradas e saídas que evitem aglomerações
Um dos pontos mais importantes para quem está organizando o certame levar em consideração é garantir que as pessoas entrem e saiam sem ter contato com outras. Se possível, garantir um portão para a entrada e outro para a saída.

2. Garanta a ventilação do ambiente
Cada vez mais pesquisas mostram que o vírus sobrevive menos em superfícies, mas permanece no ar por um bom tempo. Assim, se não há circulação de ar, o coronavírus ficará no ambiente por tempo suficiente para contaminar outras pessoas.

3. Reduza o contato do fiscal de sala com candidatos
Geralmente, o fiscal recolhe assinaturas na mesa de cada pessoa e isso é um risco. Caso ele esteja contaminado, acaba expondo todos da sala ao vírus. Por isso, é essencial criar um fluxo onde a checagem de dados é feita em um só momento, na entrada da sala.

Com informações do site: Times Brasília